Só 15% da água usada no Brasil é tratada, afirma especialista

Da água usada no Brasil, apenas 15% conta com tratamento para a eliminação de impurezas, segundo o pesquisador Carlos Eduardo Morelli Tucci, referência mundial na pesquisa científica sobre recursos hídricos. Engenheiro civil por formação, o especialista é professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Segundo Tucci, que tem entrevistado gestores e especialistas a respeito do tema, a falta de tratamento é o que mais afeta a disponibilidade hídrica, pois o esgoto contamina os próprios mananciais de abastecimento de água. "Esse é um problema de governo. Afinal, água sem tratamento que volta para os rios traduz-se em doenças, principalmente quando ocorrem enchentes", observou o pesquisador em entrevista àAgência Brasil.

De acordo com o especialista, autor de quase 500 artigos científicos publicados, é preciso estabelecer um plano estratégico para o tratamento de esgoto que defina o que vai ser feito. "Vou pegar as cidades menores; vou pegar as cidades maiores; onde eu vou incentivar as empresas para fazer tratamento de esgoto? Elas já cobram pelo esgoto na hora que coletam, então para que vão fazer tratamento?", questionou, ao lembrar que as empresas "cobram tudo que precisam cobrar de esgoto só por coletar, sem tratar".

Tem que haver uma busca de solução integrada: tirar o lixo, tirar o esgoto, amortecer o escoamento e fazer com que a água melhore de qualidade. Junto ainda, tem o tráfego e a urbanização. A gestão urbana é a grande questão brasileira. Oitenta e oito por cento da população brasileira é urbana e está ocupando 0,3% a 
0,4% da superfície do país, Carlos Eduardo Morelli Tucci

O pesquisador também criticou a questão institucional relacionada ao problema. "As empresas abastecedoras não são eficientes. Isso tem a ver com o fato de serem monopólios. O preço da água é subsidiado porque o Estado paga para a empresa mesmo que ela esteja funcionando mal. Ou então a empresa pode corrigir o preço da água como ela quiser. Ela não tem metas de eficiência. Este é o ponto fundamental, em que você poderia fazer reduzir perda", acrescentou.

Na concepção de Tucci, existem “n” possibilidades de aumentar a eficiência do sistema, mas de nada adianta melhorar a eficácia nas residências, se a rede está perdendo grande quantidade de água. "O reuso é interessante, mas o reuso tem que ter alguns cuidados básicos, não pode reutilizar toda a água, por que ela é contaminada", ressaltou.

Para o pesquisador, o Brasil possui tecnologia e mão-de-obra qualificada para equacionar o problema, mas fatores como a burocracia e a dificuldade de aplicar o conhecimento teórico na prática são entraves. "Houve um investimento significativo na formação de pessoal no exterior, o que, evidentemente, não quer dizer que tudo isso chegou à parte prática. Esse é um dos grandes desafios da ciência e da tecnologia: fazer com que o conhecimento adquirido se torne não um bem pessoal, mas um conhecimento adquirido para a sociedade. Também vivemos em uma burocracia insana", concluiu.

Em julho, ele receberá o International Hydrology Prize 2011, por sua contribuição à ciência e à prática de hidrologia. O prêmio é outorgado anualmente pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), a Organização Meteorológica Mundial (WMO) e a Associação Internacional de Ciências Hidrológicas (IAHS). A premiação será entregue em Melbourne, na Austrália.

Portal Eco

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