JULIANO AZEVEDO

Juliano Azevedo



COISA DE OUTRO MUNDO

Dormi pouco. Noite intensa, de um frio entrando pelas frestas da janela, pés debaixo da coberta buscando calor. Não adiantou nada um fazendo carinho no outro e a dúvida de usar meias foi igual à preguiça de levantar na madrugada rumo ao guarda-roupas. Até a luz de stand-by do computador incomodou, algo já de costume para quem fez o quarto de escritório nestes tempos de distanciamento social. O relógio do celular me contou que eram 2h02. Rezei um Pai Nosso e uma Ave Maria, costume quando vejo números semelhantes. E nada de sono profundo. Fiquei dormindo, acordando, dormindo, acordando.

Nos momentos em que cochilei, tive um sonho estranho. Era uma festa com muitos convidados, mas havia um programa de televisão no meio das bebidas, das músicas, dos petiscos. Sofás arrumados em U, com debatedores falando de vários assuntos. De guerra, de política, de cultura. Uma saia justa, uma roda viva, um debate eleitoral. Tudo se misturava na minha cabeça de observador não participante. O funk de trilha sonora, com bailarinas empolgadas em cima do balcão do bar, homens vestidos com trajes sertanejos brindando caipirinhas. Gretchen e Pablo Vittar conversando, chamando para dançar, ao mesmo tempo em que debatiam os assuntos polêmicos. Quem estava na festa também entrava na conversa. Era um senta e levanta – nos sofás e nos quadris.

Costumeiramente, acordo às 6 horas. A escuridão do quarto e a noite mal-dormida não mudaram a rotina. Despertei assustado e, ao mesmo tempo, dando gargalhadas do sonho maluco. O que as cantoras estavam querendo me dizer? Que cenário era aquele? Quem seriam os outros personagens presentes naquela combinação de ritmos, de assuntos? O relógio marcava 6h07. Meu ouvido zumbia alto. Aquela algazarra de boate. Sonolento, com frio, fechei os olhos para acalmar os tímpanos. O zumbido só aumentava.Um barulho ensurdecedor veio de fora da minha casa. Supus que seria uma moto subindo a Rua da Olaria, que é um morro.

De repente, passou uma moto, que buzinou, e aquele barulho de pás de helicóptero ficou mais próximo da janela do meu quarto. Assustado, puxei a cortina e não vi nada. O céu azul, com poucos raios solares, anunciou as cores do dia, da sexta-feira, 22 de maio de 2020. Sem óculos, com visão embaçada, fiquei com medo. O som subia e descia. Longe e perto. Uma onomatopeia assim: Papapapapapapapapapapapa. Papapapapapapapapapapapa. Papapapapapapapapapapapa.

Fiquei pensando se seria alguém com cortador de grama arrumando o quintal. A geladeira queimando, a televisão da minha mãe passando algum filme. Ou algo mais estranho, já que a minha noite combinava com fatos bizarros. Aquele barulho seria de uma nave espacial observando os moradores de Bom Despacho? Afinal, na internet circulam mensagens que os extraterrestres estão nos vigiando, que as imagens de seres de outros mundos estão sendo liberadas pela NASA, que haverá setes dias de escuridão, que o apocalipse começou. E o barulho ia e vinha cada vez mais próximo.

Fechei a cortina. Os olhos. Cobri a cabeça. Dormi novamente. O toque na porta me despertou: “hora de tomar café meu filho. Já são quase dez horas”. Será que eu sonhei tudo aquilo? “Mãe, a senhora escutou algum barulho de manhã. Algo semelhante a um helicóptero?” Ela colocou as mãos nos ouvidos reclamando. “Ouvi e estou até surda e enjoada. Acho que é o caminhão de fumacê contra a dengue que passa aqui na rua de vez em quando”. Silêncio! E risadas.

Juliano Azevedo

Jornalista, Professor, Terapeuta Transpessoal.
Mestre em Estudos Culturais Contemporâneos

www.blogdojuliano.com.br
E-mail: julianoazevedo@gmail.com / Instagram: @julianoazevedo

 

 


ESFREGANDO AS MEMÓRIAS




Estou me sentindo o Gênio do Alladin preso na lâmpada. Passando os dias em casa, quieto, marcando no calendário os momentos que tenho vivido... Quase escrevendo na parede os pauzinhos que levam rumo à liberdade, só para me sentir em um cenário de filme. Muitas vezes, acredito que estamos numa velocidade lenta. Em outras, que tudo está muito veloz. O trabalho continua. Reformulado, (re) aprendendo a ser professor por meio da tela do computador. As aulas virtuais me conectam ao mundo exterior, aos alunos, aos aprendizes, aos clientes terapêuticos. Do escritório tenho entrado em casas que, talvez, jamais iria. E sou grato pelo convite daqueles que me recebem com carinho. 

Estou esperando que alguém encontre o objeto mágico para me libertar. Esse é o meu desejo imediato. Nem preciso dos outros dois. Desejo a liberdade do ir e vir, pois estou com saudade de sentar na praça, de tomar sorvete, de conversar amenidades no café, de comer bolo e sanduíche de trailer. Saudade de pegar carona, o ônibus, e encontrar-me em Bom Despacho, Vitória, São Paulo, Rio de Janeiro, Teresina, nas estradas brasileiras. Fazendo as contas, faltam seis Estados para carimbar as passagens. O Norte do Brasil que me aguarde, pois em breve irei vivenciá-lo, tomando tacacá, para dançar, curtir e ficar de boa. Bolo de macaxeira, açaí com tapioca, moqueca de pirarucu.

Nessa viagem gastronômica, as lembranças em flashback me mostram o quanto faz falta a culinária da experiência: carne de onça em Curitiba, cajuína em Barra Grande, churrasco em Campo Grande, o galeto com arroz e brócolis dos cariocas, Guaraná Jesus e camarão pitú no Maranhão, tudo que se come no Rio Grande do Norte, com camarão, claro. Moqueca capixaba da Felicíssima, arroz doce da Tia Angélica, bombom de morango da Tia Maria, bolo de tapioca da Silvana, caramelo da Tia Guida, iogurte do Vinícius, feijoada da minha mãe – que também servirá no mesmo encontro mingau de fubá, salada marroquina, galopé, macarronada e um suco extravagante de cor exótica.

(Gênio retire o que eu disse sobre querer só um desejo. Escolho ter uma piscina cheia de cerejas frescas e uma cachoeira de suco de maçã da Alemanha. Pode entregar por delivery, por favor.)    

Vontade de estar com a família, com os amigos. Saudade do museu, da praia, de comida japonesa. Dos abraços apertados que distribuo aos afetos da alma. Vontade de estar em um avião, voando por cima dos mares, para acrescentar léguas às viagens pelo mundo. Com a ajuda dos livros e das séries televisivas, tenho me transportado de alguma maneira além da imaginação. Conhecendo personagens que retratam histórias comuns à minha própria existência.   

Olho ao redor para visualizar o meu canto, o local que tenho ficado nas últimas semanas. Mesa, computador, sofá, cadeira, almoçadas, estantes. Na parede, um quadro com a Matriz de Nossa Senhora de Bom Despacho; na prateleira, um aparelho de som que está mudo há vários meses. Livros, muitos, de todos os estilos, colorindo minha “lâmpada” ficcional. Eles ficam estimulando os pensamentos, provocando sonhos, compartilhando conhecimentos. Vou consumindo por osmose aqueles que ainda não dedilhei as páginas. Sigo pensando neste recolhimento que “estou isolado, mas não estou só”. Tenho a mim e aqueles que amo. Luz e paz.

Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Terapeuta Transpessoal.
Mestre em Estudos Culturais Contemporâneos

E-mail: julianoazevedo@gmail.com / Instagram: @julianoazevedo


Nenhum comentário:

Postar um comentário