MOZART FOSCHETE


Coluna do Chantecler – crônica do cotidiano


Professor Mozart Foschete




           PASSEI MINHA INFÂNCIA EM BOM DESPACHO. ERA FELIZ E NÃO SABIA


A minha rua era a do Céu. Exatamente isso: Rua do Céu. Hoje a chamam de Rua Flávio Cançado. Ela começava na Praça da Matriz e eu nunca soube onde terminava. Pelo nome, sempre acreditei que ela subia até alcançar o Céu.  Era uma rua larga, sem calçamento. Asfalto era uma coisa que não existia naquela época, pelo menos não por aquelas bandas. Na seca, era só poeira; nas chuvas, era um barreiro só. Passei minha infância ali. Éramos oito irmãos. A família era pobre. Naquela época tudo era pobre, porque o País era pobre. Havia um ou outro rico, geralmente algum dono de fazenda. Carros na rua apenas uns três ou quatro, além do Buicão do Sô Preto – único táxi da cidade.

Escola só havia uma: o Coronel Praxedes que acolhia todos os meninos dos 7 aos 11 anos. Não havia maternal, nem jardim da infância, nem pré-escola. Havia aqueles que tomavam “bomba” e tinham de repetir o ano. Estes ficavam até os 12 ou 13 anos. Eram mais fortes e temidos nas brigas na hora do recreio. Franzino que era, eu morria de medo só de ver o Félix ou o Alemão – os mais briguentos.

            Íamos a pé pro Praxedes, geralmente descalços. Sapato era só pra ir à missa das 8 aos domingos. Quando chovia, a gente ia com uma capa preta de  pelerine, sem capuz. Tomávamos chuva na cabeça, mas a gente não estava nem aí. Nem capuz a gente punha. E nunca peguei uma gripe por causa disso.

            Chegávamos da escola ali pelo meio-dia. Almoçávamos e pernas pra rua, brincar, jogar futebol no campinho ali perto, nadar no “Tiraprosão” – que era bem mais fundo que nosso tamanho. A gente não sabia nadar mas tínhamos que pular no Tiraprosão pra provar que éramos “homens”. Eu morria de medo mas pulava assim mesmo. Voltávamos pra casa ao entardecer. Lavávamos os pés imundos numa bacia de água quente para evitar o “cascão”, comíamos alguma coisa, fazíamos o dever de casa e cama. No dia seguinte, a rotina se repetia.

            Bom mesmo era quando chegava um circo ou um parque na cidade – sempre armados ali na Praça São José, hoje a Praça Antônio Leite. Não tendo dinheiro pra comprar o ingresso, o jeito era passar por debaixo do pano. Às vezes o vigia nos pegava e nos punha pra fora. Mas, tentávamos outras vezes, tantas quantas necessárias. Era uma farra.

            Aos domingos à tarde, tinha a matinê do Cine Regina: Flash Gordon, Capitão América, Capitão Marvel, Randolf Scott eram os nossos heróis. Mas, sem dinheiro suficiente para pagar o ingresso, a gente dependia da boa vontade do Dr. Juca – dono do cinema - que sempre chegava exatamente na hora da sessão começar. Ia recolhendo o que tínhamos de  moeda e deixando-nos entrar. Abençoado Dr. Juca!

            É claro que, vez por outra, a gente fazia alguma estropelia – roubava jabuticaba na casa da D. Judith, brigava na rua, demorava mais tempo na rua – e quando chegava em casa, o couro era certo. Meus psicólogos da época eram o chinelo da minha mãe, o cinto de meu pai ou o cabo de vassoura. Apanhei bastante, mas nem por isso guardei qualquer rancor de meus pais, nem fiquei traumatizado. A gente chegava em casa ressabiado, com medo de apanhar, e minha mãe dizia: “-Pode vir, filho, seu pai não vai te bater, não!” Como me disse outro dia um amigo meu, esta foi primeira “fake news” que ouvi. Não havia Vara da Criança e do Adolescente. A única Vara que conheci quando criança era uma vara de marmelo que a mamãe usava para não estragar seu chinelo quando batia na gente.

            Me lembro quando surgiu a primeira TV em Bom Despacho. Foi um vizinho nosso - o Berlim - que comprou. Pequena, em preto e branco, e com uma imagem que nunca parava fixa. Nosso programa noturno favorito era ficarmos apinhados na janela do Berlim para assistir a TV. Éramos tantos que às vezes dava briga.

            Nossas diversões mais comuns eram jogar “finca”, bola de gude, cambuí e pião. Tudo muito barato e divertido. E os troleis que a gente fazia com uma tábua  e umas rodinhas de rolimã? Descíamos a Rua do Céu em desabalada carreira, um sentado e outro em pé no trolei que, claro, não tinha freio. Todos gritavam: “-Se cair do chão não passa!” E o trolei só parava quando batia em algum muro ou meio-fio. Nossos cotovelos viviam  machucados. Vez ou outra alguém  quebrava o braço ou destroncava o pé. Mas isso também fazia parte.

            E havia ainda as vacinas que eu detestava: contra sarampo,  varicela, tétano,  coqueluche  e, depois, ainda apareceu uma outra, contra paralisia infantil. E o medo de pegar caxumba que, segundo diziam, descia para o saco e você ficava impotente. Isso, sim, era traumatizante. Pior que tudo isso era tomar os famosos lombrigueiros  - para pôr as lombrigas pra fora. Horrível!

            Dentista só havia um: o Dr. Raul. Diziam que era dentista prático. Ele arrancava dente da gente ou tratava canal com ou sem anestesia. A opção de meu pai era sem anestesia por ser mais barato. Sou traumatizado com dentista até hoje.

            Pensando bem, não sei como sobrevivi a tudo isso: caíamos das árvores, pulávamos no Tiraprosão sem saber nadar, andávamos de trolei sem freio, bebíamos água do Tiraprosinha que era mais suja que a do Tiraprosão, brincávamos na chuva, andávamos no pasto no meio de vacas brabas, e apanhávamos de verdade.

            Hoje, já um tanto velho, e depois de conhecer o mundo quase todo, me bate uma saudade tremenda de tudo isso. Eu era feliz e não sabia. O que me faz lembrar daquela canção do Ataulfo Alves:

                        “Eu daria tudo que tivesse pra voltar aos dias de criança.

                        Eu não sei por que a gente cresce se não sai da gente esta lembrança

                        Da cidadezinha onde nasci. Ai, meu Deus, eu era tão feliz

                        Na minha pequena Bom Despacho.

                        Que saudade da professorinha que me ensinou o beabá.

                        Onde andará Mariazinha, meu primeiro amor, onde andará?”...

            E olho para meus netos e fico com pena deles. Têm de tudo o que o mundo moderno pode lhes oferecer. Mas nunca saberão como era bom ser criança em Bom Despacho há alguns anos atrás.

                        Chantecler.








CARTA AO SENHOR MINISTRO BARROSO, DO STF
(Parodiando o Dr. Fernando Ayres da Mota)




Senhor Ministro,

Reporto-me àquelas manifestações populares de domingo atrasado, em frente ao QG do Exército em Brasília, com a presença do Bolsonaro, e onde os manifestantes pediam o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, além da edição de um novo AI-5. A reação e críticas a essas propostas foram gerais - principalmente por parte de alguns parlamentares e de membros da mais alta Corte do País, sob o argumento de que isso atentava contra a nossa democracia e coisa e tal.

Vossa Excelência (eu preferiria tratá-lo como Magnificência – acho mais pomposo) - foi uma das vozes que se levantaram contra estas manifestações, afirmando que “os que defendem a intervenção militar teriam perdido a fé no futuro”, e acrescentando mais “que pessoas de bem não desejam a intervenção militar.”

Embora V. Excelência ou V. Magnificência seja um dos Ministros que mais aprecio da nossa mais alta Corte, eu bem que gostaria de rebater suas afirmações por julgá-las, data vênia, descabidas e destituídas de propósito. Mas, antes de mim, e com muito mais propriedade, o advogado Dr. Fernando Ayres da Mota, do Rio, encaminhou-lhe uma carta-resposta que é um primor de texto. Como a li somente uma vez, é claro que não a sei de cor, mas a gente sempre guarda na memória trechos de um texto bem escrito. E vou me permitir transcrevê-los aqui, ainda que não literalmente – pois era exatamente isso o que eu gostaria de lhe responder.

Em primeiro lugar, a sua afirmação de que “as pessoas de bem não desejam a intervenção militar” leva inevitavelmente à conclusão de que quem a deseja são as pessoas do mal. Neste particular, acho sua opinião totalmente infeliz, inoportuna, inapropriada e destituída de qualquer base real. Há muitas pessoas idôneas, capazes e do bem, que certamente não vêm outra alternativa que não esta para o País se livrar desta corja que se instalou no Congresso Nacional e, também, de alguns membros de nossa mais alta e desmoralizada Corte de Justiça que tomam decisões ao arrepio da lei e que estão sempre a emitir opiniões políticas de forma descabida sobre acontecimentos políticos-populares, antecipando, de público, um julgamento que eventualmente poderá vir a acontecer, esquecendo-se da máxima jurídica de que Juiz só deve falar no processo.

Esquece ou não sabe Vossa Excelência que nossa maltratada e enxovalhada democracia – hoje, sem dúvida, uma figura de retórica – não oferece nenhuma possibilidade de a sociedade se livrar dessas altas figuras tão nefastas à nação brasileira. Não percebe ou não vê V. Magnificência que nossa prostituída democracia só tem sido capaz, nessas últimas décadas, de gerar uma classe política da pior espécie, uma verdadeira quadrilha, bandidos de toda sorte que só souberam assaltar de forma inescrupulosa os cofres públicos na certeza da impunidade. Uma democracia onde só têm vez os não-éticos, os malfeitores, os aventureiros, os imorais e os corruptos.

Será que Vossa Excelência não é capaz de perceber que os gritos da rua de fechar o Congresso Nacional e o seu STF e de editar um novo AI-5 partem de um povo brasileiro sofrido, cansado, indignado, inconformado e totalmente desesperançado de suas principais instituições?

Será que Vossa Magnificência se esqueceu de que, nas últimas quase duas décadas, o Brasil foi pilhado de forma inescrupulosa e sem limite por um grupo que assumiu o Poder e o butim foi repartido entre aqueles que hoje são os primeiros a clamarem pela derrubada do atual governo porque, como vampiros, sentem uma incontrolável necessidade de sangue, sangue este que, hoje, lhes tem sido negado?
Será que Vossa Excelência não consegue enxergar que a libertação dos maiores bandidos e caciques daquela pilhagem, patrocinada e referendada pela Corte à qual Vossa Excelência pertence, agride a consciência política da maioria dos cidadãos, especialmente os do bem?

Será que Vossa Magnificência não consegue perceber que muitos dos Ministros dessa nossa mais alta Corte vêm tomando decisões ao arrepio da lei - Ministros estes que, por não terem a mínima qualificação técnica e moral, não mereciam nela ter assento?
Eu, que não participei daquelas manifestações – mas que as compreendo – gostaria de lhe informar, Senhor Ministro, que aqueles que delas participaram reclamando a intervenção militar, não o fizeram porque tenham perdido a fé no futuro ou porque são pessoas más. Elas o fizeram porque perderam presentemente a fé no STF e não confiam nem um pouco nos Renans , nos Lulas, nos Zé Dirceus, nos Sarneys, nos Aécios, nos Barbalhos, nos Rodrigos Maias, nos Alcolumbres, nos Dórias, na Rede Globo e na extrema imprensa em geral e assemelhados.

Aquelas pessoas, Senhor Ministro, não querem as Forças Armadas no Poder. Apenas as veem como a única alternativa que pode livrá-las dessa escória de políticos. Ou Vossa Excelência tem alguma alternativa melhor? Talvez Vossa Excelência – que, sem dúvida, é o mais preparado e equilibrado dos Ministros dessa Alta Corte – acredita que a continuação do atual estado de coisas nesse País é melhor do que a intervenção militar?
Acredite, Senhor Ministro, julgo-me um homem de bem, e também não acredito que as mudanças de que o País precisa virão do Congresso Nacional ou do STF. Árvores podres não produzem bons frutos.
Tchau e queira-me bem!
Chantecler.



24º DIA DE CONFINAMENTO




Já estou quase completando quatro semanas de quarentena que, como vocês sabem, eu chamo de confinamento. Pelos meus cálculos, já estou confinado há 25 dias. Dizem que o isolamento por muito tempo causa, pela ordem, desânimo, desilusão, depressão e demência. Os famosos quatro “d” do isolamento. Mas tenho resistido bravamente. No início senti um pouco de desânimo, sim. Mas não me lembro de ter sentido desilusão nem depressão. É verdade que já ando conversando com os personagens dos livros que leio e dos filmes que vejo. Também ando discutindo com o cara mais teimoso que já vi - eu mesmo. Será que queimei algumas etapas e fui direto para a demência? Só falta.
Mas devo admitir que, aqui em casa, o ambiente melhorou um pouco. Lembram que a Ângela quase não vinha conversando comigo desde aquele dia que eu joguei o gato dela pela janela e ainda quebrei a TV por não aguentar mais assistir a Globonews? Pois agora, ela está um pouco mais conversadeira. Tem me dado “bom dia” todas as manhãs. “Boa noite”, também. Está muito mais solícita comigo. Está sempre me perguntando se eu quero uma cervejinha, ou uma taça de vinho.
No início, estranhei este novo comportamento dela para comigo. Será que, no caso dela, o confinamento a tinha feito reconhecer que não tem cara mais bonito, mais charmoso e mais legal que eu no mundo? Será que o confinamento fez ela me dar o valor que mereço? O que a fez mudar tanto de uns dias para cá?
Mas, já achei a resposta: ela está assim desde aquele dia em que eu comentei com ela uma reportagem da Folha de S. Paulo que dizia que nestas últimas semanas o feminicídio tinha mais que duplicado no Brasil. Me lembro que eu ainda brinquei com ela: “-Acho que eu vou acabar aumentando esta estatística!” Depois disso, vocês não imaginam como ela melhorou. Tá mansinha, um doce de pessoa. Já estou até gostando desse confinamento.
Ah, arranjei uma TV emprestada com uma de minhas filhas. Só vejo filmes da Netflix. Não que sejam lá essas coisas, mas a alternativa são os noticiários – que estavam me levando à demência. Mas até que, ontem, apenas por curiosidade, liguei na Globonews pra ver como andava o coronavirus. Nada mudou. Nem parece que fiquei oito dias sem TV. As mortes continuam na Itália, na Espanha, no Reino Unido e até no Japão. Em São Paulo também. Não sei se alguém se recupera de uma contaminação desse vírus. Se recupera, a TV não diz. Pelo menos a Rede Globo não fala nada.
O Bozo continua aprontando do mesmo jeito. Fala besteiras, desafia seus desafetos – que, por sinal, não são flor que se cheire. Agora fiquei sabendo que ele resolveu “conversar” com aquele pessoal do Centrão e do MDB. É a velha política do “toma lá dá cá” de volta. Quem diria, hein? Difícil governar este País com estes políticos que temos!
* * *
Mas, ainda que muitos de vocês fiquem decepcionados comigo, eu estou mesmo é torcendo para um “liberou” programado e comedido: todo mundo de máscara, só entram dois de cada vez na loja, ninguém em pé nem sentado ao lado um do outro no ônibus, e coisas do tipo. E vamos e venhamos: pra quem está no andar de cima, até que está dando pra levar este confinamento numa boa. Afinal, este pessoal tem emprego e renda garantidos e, com certeza, dispõe de uma poupança.
Agora, pra quem está no andar de baixo a situação está horrível. Sem renda, sem emprego, sem poupança prévia, nem nada. Na casa deste pessoal, como já disse em outra ocasião, os marimbondos não estão fazendo mel. Estão dando ferroada como é de sua natureza. E ainda tem aqueles pequenos comerciantes que fecharam seu negócio e nem podem se candidatar àqueles 600 reais do governo.
E não me venha o milionário e oportunista governador João Dória me dizer, com aquela empáfia e arrogância que é lhe são próprias, que todos devem aguentar firme e dar sua cota de sacrifício para o bem do Brasil. Ah, tenha paciência, seu janotinha! Como aguentar firme numa casa onde está faltando comida na mesa?
Não, não estou defendendo um liberou geral. Estou só sugerindo que se tenha um pouco mais bom senso. Vamos ter cuidado, sim. Mas sem histeria nem pânico. E, por favor, parem de ver a Globo News e o Jornal Nacional. Pelo menos sua saúde mental vai melhorar muito.
Tchau procês!
Chantecler.


TEMPOS SOMBRIOS



Meus caros e raros leitores,
            Sempre fui uma pessoa de convicções  e opiniúdo. Já era assim desde menino. Agora, já um tanto velho, algumas de minhas certezas estão se esvaindo e em seu lugar surgem inúmeras dúvidas. Principalmente agora nesses tempos sombrios de coronavirus.
            Tenho dúvidas, por exemplo, se esta estratégia de “distanciamento social” associada ao fechamento do comércio em geral é a melhor para nós. Afinal, só  a classe média e a classe alta podem fazer quarentena. Elas têm uma poupança financeira e renda garantida para aguentarem este período numa boa. Não preciso dizer porque as demais 40 milhões de pessoas – quer dizer, os pobres – não têm como fazer quarentena. Certamente e infelizmente, eles vão depender dos favores do governo e das esmolas das ruas.
            Mas, também, não convém  haver um “liberou geral”. Óbvio que não. Mas, ouso imaginar que seria possível haver um “liberou” mais ou menos disciplinado para alguns grupos, com recomendações severas do tipo “todos de máscara”, “só entram dois de cada...”, e “mantenha a distância”. Os velhos e outros grupos de risco que fiquem em casa. Ainda bem que não sou eu quem tem de tomar estas decisões.
            Mas, se tenho estas dúvidas acima, não as tenho quando percebo que a TV Globo pretende, com seus noticiários alarmistas, criar um certo pânico na população. E para que? Para derrubar o Bozo? Parece que sim. Mas, nisso ela não está sozinha. Tem um bando de políticos e de outros bandidos de primeira linha querendo a mesma coisa. Motivos o Bozo tem dado de sobra.
            Na visão deste pessoal, além do pânico, faz-se necessário criar, também, o caos na economia. Aí o quadro estará completo. Só pode ser esta a razão de sermos massacrados com notícias ruins sobre o COVID-19, entrevistas catastróficas de especialistas, infectologistas, pneumologistas, virologistas e assemelhados. Uma população em pânico aceita qualquer medida, até mesmo aquelas que lhe tiram os direitos básicos de ir e vir.
            O curioso disso tudo é perceber como, em momentos de crise como o de agora, as vocações ditatoriais afloram que é uma beleza. Veja, por exemplo, o que está acontecendo lá no Estado de São Paulo. Percebendo que seu ibope aumentou com as medidas restritivas que vinha adotando, aquele João Dória resolveu endurecer mais ainda: está ameaçando com multas e até prisão os que contrariarem suas decisões – quer dizer aqueles que, sem motivo aparente, estiverem perambulando nas ruas. Ameaçando, não. Suas polícias e fiscais já andam prendendo, com requintes de brutalidade gratuita, quem estiver na rua sem se explicar. Cenas lamentáveis que só se vêm em países comunistas. Que se fodam os direitos fundamentais do cidadão de ir e vir! O que orienta as decisões do Dória é o ibope. O resto é resto.
            Mas, isso não acontece só em São Paulo, não. O Brasil está cheio de João Dórias. Em muitas cidades do interior o fenômeno se repete. Prefeitos vocacionados a tiranos baixam decretos criando restrições mil ao funcionamento do comércio e de outros serviços. Até borracheiro – um serviço de assistência de primeira necessidade está proibido de trabalhar. Alguns até criaram toque de recolher – algo previsto na Constituição Federal somente em época de Estado de Sítio. Sem dúvida, alguns têm o  prazer sádico de se sentirem o “dono do pedaço”.
Como corolário desse comportamento ditatorial, Secretários Municipais baixam Resoluções ilegais impondo ou criando obrigações e deveres para o cidadão ou estabelecimento comercial privado cumprirem – coisa que só uma lei poderia fazer -, como, por exemplo, se responsabilizar por uma eventual fila externa à loja. Isso é coisa de polícia. Só o Estado é que tem este “poder de polícia”. Um poder que não pode ser delegado a um cidadão ou a um proprietário de um estabelecimento comercial. E ai de quem não cumprir estas determinações: multas são aplicadas sem dó nem piedade. Fora as ameaças de cassação do alvará. Um festival de arbitrariedades.
E tudo é feito, claro, em nome da crise e da defesa da vida dos cidadãos.
Ainda como corolário disso tudo, existe o “fiscal” municipal ou agente do Estado que é aquele que executa as ordens ou as normas vigentes, sejam elas constitucionais ou não. Tornam-se arbitrários e cumprem a norma ao pé da letra, doa a quem doer. Bom senso é o que lhes falta. Ali ele é a lei e zé fini. Orientar o cidadão ou organizar filas seria uma ótima atribuição para eles. Mas eles não foram treinados para isso. Só foram treinados para multar.
 Pior de tudo é que os cidadãos, acometidos pelo medo e pelo pânico que a TV lhes incutiu e imaginando que tudo é feito para sua salvaguarda e a defesa de sua saúde, a tudo assistem passivamente, sem esboçar qualquer reação.
Neste ambiente, então, o ditador deita e rola. Como disse Maquiavel, “dê poder a um homem e aí você descobrirá quem realmente ele é!”
Estamos, deveras, vivendo tempos sombrios. Como disse no início, eu sempre fui um homem de convicções e opiniúdo. Esqueci de acrescentar: também sempre tive medo da tirania e sempre fui avesso a ditadores.
            Chantecler.



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