MOZART FOSCHETE


Coluna do Chantecler 

Professor Mozart Foschete

Coluna do Chantecler – crônicas do cotidiano


REENCONTRANDO AMIGOS QUE JÁ SE FORAM (I)
Estive outro dia em Bom Despacho. Outro dia quero dizer, início dos anos 60. Tinha dado umas voltas pelo exterior e, de volta ao Brasil, estava com saudade de minha terra e de seu povo. Fazia uns três anos que eu lá não ia. E como já estava virando hábito quando eu visitava a cidade, resolvi dar uma caminhada para ver como estavam as coisas e rever pessoas que me eram tão queridas e que fazia tempo que não via. Era uma forma de matar a saudade dos lugares que tanto frequentei quando criança e adolescente. Quando faço isso, me vejo num daqueles filmes italianos em que o artista retorna à sua cidadezinha natal e começa a rever todo o tempo que ali viveu.

Meus caros, raros e fieis leitores,

Comecei a minha caminhada lá em cima onde termina a minha Rua do Céu e começa a Tabatinga. Entrei na venda do Dedé – pai do Adão e da Eva – cumprimentei-o e ele me abraçou efusivamente, com aquele cigarrinho de palha na boca – sua marca tradicional. Me deu um doce de palha – coisa que eu não comia fazia tempo. Perguntei pelo Adão e ele me disse que ele, agora, era soldado da Polícia Militar e estava fazendo curso pra sargento. Gostei de saber. Eu e o Adão éramos quase que inseparáveis quando crianças.

Retomando minha caminhada, topei de cara com o Mário Moreira na porta de sua distribuidora de bebidas. Nos cumprimentamos, mas tive a sensação de que ele não estava se lembrando muito de quem eu era. Passei pela venda do Tõe Paiva que me deu um pé-de-moleque inteiro. Se eu continuasse ganhando doces assim, aja dieta. Um homem humilde e generoso, um verdadeiro santo, sem dúvida, o Tôe Paiva. E aí cheguei na casa de minha mãe que, como sempre, estava na porta da casa conversando com a Helena do Berlim. Meu pai, pra variar, estava deitado na rede na varanda vigiando as pessoas que passavam. Tinha um caso diferente de cada uma delas pra contar. Convidei-o para dar uma volta comigo, mas ele agradeceu o convite dizendo que já não tinha perna nem disposição para isso.

Segui meu caminho e parei pra tomar um café com o Omar da Padaria Sílvia. Antes, passei em frente à casa do Francisquinho e o Gê do ginásio, seu irmão, também pra variar, estava na janela vendo as pessoas que passavam. Era sua maior ocupação, além de, às vezes, ficar tocando um pistão nas outras horas vagas. E ele não estava nem aí se aquele pistão incomodava os vizinhos ou não. O Omar era daqueles velhos curiosos que, sempre que me encontrava me enchia de perguntas sobre o Brasil e o mundo lá fora. Ele achava que eu sabia tudo. E eu, sabendo ou não, sempre tinha uma resposta pra lhe dar. Perguntei-lhe pelo Branco, seu irmão, e ele me disse que devia estar por aí, na companhia do Joaquinzinho da gráfica. Queria conversar mais, mas disse-lhe que voltaria outra hora porque tinha uma longa caminhada pela frente.

Desci mais um pouco, passei em frente à Rádio Difusora que estava com a porta aberta mas não vi ninguém no seu interior. Procurei por alguém lá dentro, pensando, vaidosamente, na hipótese de agendar uma entrevista ao vivo e a cores sobre a viagem que eu tinha feito à Roma e à Veneza. Eu já dera uma entrevista semelhante, uns três ou quatro anos atrás, quando eu voltei de uma viagem a Buenos Aires. Bem, infelizmente, não encontrei ninguém. O locutor de plantão devia ter ido ao banheiro. Deixei pra lá.

Desci mais um pouco, passei pela Pensão Xavier e lá estava a D. Maria Xavier cuidando de seu jardim do lado de fora. Ela fez questão de descer os três ou quatro degraus pra vir me dar um abraço. É isso que me cativava nas pessoas de Bom Despacho: a simplicidade e a educação de todos. No caso da Maria Xavier, mesmo não tendo muito contato comigo, ela, sempre que me via, abria um sorriso bonito. Quis puxar assunto, mas, infelizmente, eu tinha de seguir com minha caminhada. Perguntei-lhe pelo Zé Jaime que, dos filhos dela, era o que eu mais conhecia. Ela me disse que ele acabara de se casar com a Alzira. Que bom, pensei comigo, e continuei minha descida pela Rua do Céu em direção à Praça da Matriz. Pelo caminho, cruzava com muitas pessoas que me cumprimentavam pelo nome. Muitos eu já nem me lembrava mais quem era. Passei pela Casa do Tõe Cumpadre, cumprimentei o Lúcio, meu amigo de infância, e acabei de chegar na Praça da Matriz.

Saindo da Rádio, vi o Joãozinho da Casinha do outro lado da rua e mandei-lhe um abraço e ele me retribuiu com um aceno. Quem diria que, uns 20 anos depois disso, eu me encontraria por acaso com ele num restaurante de Buenos Aires. Estavam ele, o Cláudio Teixeira e o Vicente da Credibom e respectivas esposas. Pura coincidência e uma satisfação encontrar assim esses conterrâneos no exterior.

A Praça da Matriz sempre me encantou, desde menino. E agora, com a remodelação que o Geraldo Simão tinha acabado de fazer, ela ficou mais linda ainda. Um verdadeiro cartão postal para turista nenhum botar defeito. Resolvi dar uma volta completa por ela, curtindo loja por loja. Virei à esquerda, passei defronte à Casa Paroquial, cumprimentei o Padre Robson e segui em frente. Passei em frente à farmácia do Faustininho – talvez a mais antiga de nossa cidade. Na porta do Hospital Dr. Miguel topei com o Dr. Roberto Queiroz e aproveitei pra pedir a ele pra dar uma olhada no meu pai que andava reclamando de umas dores nas costas. Dei-lhe um abraço e segui em frente até chegar na Casa Assunção - a loja que mais me fascinava nos meus tempos de criança, na época do Natal. O professor Tarcísio estava lá conversando com um casal nos degraus que davam para a rua. Me deu um abraço como se fôssemos velhos amigos. Ele sempre gostou de mim (e eu dele) desde os tempos do Miguel Gontijo. Perguntei-lhe se continuava no ginásio e ele me disse que estava se aposentando. Na sua natural simplicidade, me disse que era preciso dar lugar aos mais jovens “gente como você, capaz e cheia de gás”! Simpático o professor Tarcísio, como sempre.

Andei mais um pouco, passei pela farmácia do João Gonzaga e a farmácia Brasil, do Wander. Em ambas um dedo de prosa com cada um. Todos invariavelmente me perguntavam por onde eu andava. Que gente educada e espontânea.

Andei mais um pouco e adivinhem com quem me encontrei! Com o Badu e o Baduzinho na porta da Mobiliadora do Lar. Perguntei ao Baduzinho se era verdade aquele caso do Cantinho da Tê com a Eliane, sua esposa (meu pai já tinha me contado). Ele abriu um sorriso e me disse: “-Até você já soube?” “-Claro. Quem não sabe em Bom Despacho? Eu só queria saber a sua versão!” E ele não disse nem que sim nem que nem. Mas seu sorriso era de confirmação.

Bem, continuei na minha peregrinação. Meu próximo encontro foi com a Dona Liquinha. Mas, isso vou deixar pra contar na próxima semana. Até lá.
Chantecler.

VEJAM A SAFRA DE PRESIDENCIÁVEIS PARA 2022

Meus caros, raros e fieis leitores,

              Vocês são da época do governo militar no Brasil? Quem for há de se lembrar da escolha do último presidente daquele período – o general João Baptista Figueiredo. Na época, comentou-se muito que havia muitos generais mais bem preparados que ele e que a escolha tinha sido muito infeliz. Cavalariano, era muito grosseiro no trato e sempre com respostas ríspidas às perguntas dos jornalistas. 

              Mas, o general Figueiredo não foi exceção nesse País. A rigor, o Brasil tem uma tradição de escolhas infelizes para o mais elevado cargo da nação. Os que vieram após ele também nunca foram lá essas coisas. Cada qual mais inexpressivo, todos longe de serem um estadista ou um líder político de expressão. Olhem a sequência pós-Figueiredo: Sarney – representante máximo da oligarquia política nordestina -, depois Collor – que inaugurou a corrupção explícita a ponto de ser impinchado por isso -, depois Itamar Franco – inapto e inepto para o cargo de presidente que lhe caiu de graça no colo -, depois Fernando Henrique Cardoso – que parecia ser um estadista quando assumiu o cargo e depois se revelou cheio de maracutaias para se reeleger -, depois Lula – um manipulador demagógico populista em cujo governo a corrupção virou algo institucional -, depois Dilma Roussef – que, além de despreparada para o cargo, não conseguia falar uma frase com sujeito, verbo e objeto direto -, depois Michel Temmer – um  interino que tinha cara de mordomo inglês e foi acusado de diversas maracutaias – e, agora, este Bolsonaro que tem se revelado um total despreparado em todos os sentidos para tão elevado cargo, além de comportamentos e atitudes autoritários. 
           
  Como se vê, não salva um. Mas, o pior ainda está por vir. A lista dos pré-candidatos que se apresenta para 2022 é de causar arrepios. Os principais nomes que estão despontando hoje para as eleições do ano que vem não poderiam ser piores. A lista é capitaneada pelo atual presidente – o Bozo -, seguido do Lula, do Ciro Gomes, do Luciano Huck, do João Doria, do Boulos, Sérgio Moro e do Amoedo.

              O Bozo dispensa comentários. Todos hoje o conhecemos e sabemos de suas qualidades (ou melhor, da falta delas) e de suas limitações. Mas, tem lá sua turma de seguidores fieis que pode lhe dar alguma chance de reeleição – o que deverá se constituir num desastre para o País. 

 O Lula, agora “absolvido” pelo STF, virou ex-corrupto, mas continua o mesmo demagogo extremado  que fala o que a plateia quer ouvir. Posa de esquerdista, mas nunca foi um socialista na acepção da palavra. Pra se eleger novamente é capaz de fazer pactos com todos os espectros políticos. No entanto, ao contrário do que seus seguidores imaginam, parece não ter chance de se reeleger. O carimbo de corrupto-mor está estampado na sua face e tão cedo não se apaga. Esperto como é e com o faro e instinto político que lhe são peculiares, é bastante possível que nem se lance candidato para não sofrer uma derrota acachapante. 

Ciro Gomes – que posa de centro-esquerda – fala o que lhe vem à cabeça. Seus discursos são incoerentes e sempre agressivos, querendo transmitir uma imagem de quem tem solução pra todos os problemas do País.  Rompido com o PT desde que esse não o apoiou nas últimas eleições, preocupa-se em mostrar-se o lídimo representante da esquerda. Seu discurso demagógico, no entanto, é facilmente perceptível por todos aqueles que têm um pouco de massa cefálica. As chances de sua eleição continuam cada vez menores.

João Doria, se for candidato (é provável que não seja), vai tentar se passar como o representante do centro, equilibrado, não-radical, nem de esquerda nem de direita. Se candidato, sua campanha vai tentar vender a imagem do político líder no combate à  pandemia, sempre preocupado com a saúde dos brasileiros. No entanto, sua pose de janota e de granfino, dá-lhe uma imagem de esnobe e arrogante que afugenta o eleitor minimamente bem informado. Suas atitudes demagógicas são por demais óbvias.

Luciano Huck é uma típica criação de FHC, mas não passa de um animador de auditório, como se dizia antigamente sobre aqueles radialistas que tinham programa de calouros e de sorteios e prêmios nas rádios. Não tem nenhuma experiência política, nunca ocupou um cargo público e, se eleito, será facilmente manipulado pela putaria de políticos. Sua candidatura é totalmente destituída de sentido. Suas chances são próximas de zero.

Guilherme Boulos desponta, hoje, como a maior revelação das correntes de esquerda no País. Diz que é professor, filósofo, psicanalista e escritor. Não tem emprego. Filiado ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), é o líder de maior expressão do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Foi candidato à Presidente em 2018 mas obteve inexpressiva votação. No entanto, quase se elege na última eleição para prefeito de São Paulo – o que alavancou sua posição de líder da esquerda. Seu embate maior vai ser com o PT e com Ciro Gomes para ser o grande representante das esquerdas nas próximas eleições.

Sérgio Moro, que despontou como figura máxima da Lava-Jato, parecia há um ano e pouco atrás, um dos candidatos mais fortes a presidente para 2022. No entanto, a forma como saiu do governo atual e as acusações de parcialidade nos processos contra o ex-corrupto Lula, minaram bastante suas chances. Ainda pode ser um forte candidato, se deixarem que ele se candidate. É provável que o “sistema” não o permita. 

João Amoedo, do Partido Novo, do qual é fundador, também já foi candidato a presidente na última eleição mas teve uma votação bem menor do que se supunha no início que teria. Não empolga nem o centro nem a direita. Continua sem chances. 

Esta é a safra de candidatos que se oferece hoje aos eleitores brasileiros. Poderia haver safra pior? O que define a qualidade do bezerro é a matriz. E a matriz que temos – quer dizer, a nossa classe política – não tem como parir candidatos melhores. É uma lei da natureza. 
Chantecler.
 
 

A VIDA NOTURNA E AS ATRAÇÕES TURÍSTICAS DE BOM DESPACHO

Meus caros, raros e fieis leitores,

 Eu sempre tenho algo a falar de minha (nossa) Bom Despacho. Adoro esta cidade e, quando você ama, fica muito fácil falar por horas da amada. Vou lhes contar dois casos que mostram bem o carinho e a minha ligação com essa cidade. Acho até que já mencionei isso em uma crônica lá atrás. Mas, não tem importância. Se já contei, conto outra vez.

 Durante os anos 90

, eu era economista do IPEA, lecionava na Universidade de Brasília e à noite e fins de semana eu dava aulas de Economia em cursinhos preparatórios para concursos. Naquele época, a Economia era a matéria mais importante (e a menos conhecida da maioria dos candidatos) dos concursos de Auditor Fiscal da Receita Federal, para o Banco Central, para o TCU, Receita Estadual e alguns outros. Minhas salas de aula eram permanentemente lotadas com 200 ou mais alunos. Modéstia às favas, eu era um ótimo professor de Economia – talvez a única coisa que eu sabia fazer bem. 

 Pois bem, ao iniciar o curso, a primeira coisa que eu fazia era me apresentar (a maioria já me conhecia pelo menos de ouvir falar), e, em seguida, dizia que eu era de uma cidade linda do interior de Minas e pedia pra ninguém se sentir humilhado por não ser de lá. “EU SOU DE BOM DESPACO!”. Geralmente, fazia-se um silêncio e, em seguida, vinha a pergunta inevitável: “-Onde fica isso?” Veja se pode uma pergunta dessas! “-Ora, onde fica Isso?” – eu perguntava. Bom Despacho não é “isso”. Bom Despacho é uma cidade, uma senhora cidade. “-Fica perto de que? “- era a segunda pergunta. E eu respondia, na maior tranquilidade: “-Bom Despacho não fica perto de nada. Agora lá perto de Bom Despacho, ficam Nova Serrana, Divinópolis, Pará de Minas e até mesmo Belo Horizonte. E como toda cidade grande, o aeroporto de Bom Despacho fica longe do centro. Fica lá em Confins.” Os alunos riam escancaradamente.

 Às vezes, quando eu estava um pouco mais disposto, eu me dava ao trabalho de dar uma aulinha de geografia para os alunos, desenhando no quadro verde o mapa do Brasil e dentro do Brasil eu desenhava toscamente o mapa de Minas Gerais e, dentro desse, eu desenhava uma rodinha bem pequena e dizia: “-Estão vendo que Minas é um Estado central no Brasil, equidistante do Sul e do Norte? E olhe que interessante, Bom Despacho está no centro de Minas Gerais. Trocando em miúdos: se Minas é o Estado Central do Brasil e se Bom Despacho está no centro de Minas, podemos concluir que Bom Despacho é o centro do Brasil.” E após eu dizer isso, a sala vinha abaixo de gargalhada. E eu sério. Não entendia porque eles riam do óbvio. 

 E o pior aconteceu numa dessas minhas aulas em que eu estava exagerando nos elogios a Bom Despacho, quando uma aluna me cortou o barato e disse alto pra todo mundo ouvir: “-Pessoal, nada disso que ele está falando é verdade! É tudo mentira.” A turma toda riu. Aí eu perguntei pra ela: “-Como você sabe que é mentira minha?” E ela mais que depressa: “-Eu sou de lá. Nasci e fui criada lá!” “-Mas, tem quanto tempo que você saiu de lá?” E ela: “-Saí no ano passado!” E eu: “-Que isso, menina? Bom Despacho mudou demais de um ano pra cá. Bom Despacho hoje é outra cidade!” Aí as gargalhadas explodiram.

 Um outro caso interessante: Eu estava fazendo um Curso de Trânsito na Universidade de Georgetown, em Washington, em 1972, junto com mais uns 30 alunos – todos latino-americanos. Como eu era o único brasileiro, o curso era dado em espanhol. No curso havia uma disciplina chamada Didática (nunca entendi a razão para ter essa matéria naquele curso). A prova final dessa matéria era cada um fazer uma exposição oral de pelo menos 30 minutos  sobre qualquer assunto de sua livre escolha, devendo o aluno entregar o texto escrito após a apresentação (uma espécie de monografia ou TCC).

 E sabem qual o tema que eu escolhi e falei  por 45 minutos? ”BOM DESPACHO, SUAS ATRAÇÕES TURÍSTICAS E SUA VIDA NOTURNA”. Naquela época, os recursos audiovisuais eram muito primários e escassos. Durante minha exposição, eu ia projetando numa telona “slides” com fotos de Copacabana, da Barra da Tijuca, do Arpoador, de uma ou outra favela, da Avenida Paulista, da Av. Faria Lima e de praias. Não mostrei o Cristo Redentor porque algum aluno poderia conhecer o monumento. Tudo como se fossem paisagens de Bom Despacho.

 E terminei mostrando um slide de nossa Igreja Matriz, minimizando seu tamanho e chamando-a de “capelinha. E encerrei mostrando uma foto  da Biquinha, dizendo que todos que bebem de sua água, sempre voltam à cidade. E afirmei categoricamente: “-Isso não é crendice. É fato.”
 Todos caíram na gargalhada e todos queriam saber como visitar a cidade. E eu respondi que eles dificilmente achariam um voo para Bom Despacho. Os que partiam de Washington estavam todos lotados para os próximos meses. Se quisessem mesmo vir a Bom Despacho, talvez teriam de partir de Nova York. Os voos eram diretos, dizia eu.

 E a maioria das pessoas presentes acreditou nas minhas palavras. Fui aplaudido de pé”. Mal sabiam elas que eu estava acabando de inventar as “fake news” – algo que só seria usado rotineiramente muitos anos depois.  Vou requerer os direitos autorais. 
 Chantecler.




NO TEMPO DAS ANÁGUAS     
             
Já lhes disse aqui que, nesses tempos de pandemia, tenho tentado de todas as formas não ficar demente. Já ouvi dos “cientistas” que, além de divórcios e separações, esse confinamento prolongado costuma causar demência. Eu, hein? Ponha o cérebro para trabalhar. É o que tenho procurado. Leio muito, escrevo muito e não vejo noticiários alarmistas da TV. Globo News, Fantástico e Jornal Nacional, então, nem pensar. 

Ah, e também tem me sobrado um pouco de tempo para lembrar das coisas pelas quais passei. Vocês que me leem há algum tempo sabem que adoro relembrar meus tempos de menino e de rapaz nas ruas de Bom Despacho.  Outro dia mesmo recebi pelo zap uma foto meio antiga de um grupo de moças, na porta do Ginásio Miguel Gontijo, e a combinação ou anágua de uma delas estava aparecendo por baixo da saia. Isso não era conveniente para uma donzela pulcra e  Isso até me fez voltar no tempo e relembrar um fato que se passou comigo, adolescente.  Comecei a lembrar como eram as paqueras naquela época. Eu era o próprio tímido com as moças. Um noite, achando que uma moça estava olhando pra mim naquele “footing” defronte o Cine Regina, criei coragem e a abordei. O nome dela era Rosane. Ela estava num vestido “tubinho” azul escuro, me lembro bem. A timidez leva à insegurança. Eu tremia feito um condenado.  Quando nos afastamos um pouco das amigas dela, eu criei coragem e lhe disse meio que gaguejando: “-Sua anágua ou combinação está aparecendo embaixo de seu vestido!” Me lembro da “semgraceza” que ela ficou na hora, tentando ajeitar a anágua, puxando por cima do vestido na altura da cintura. Ficamos os dois sem graça. O namoro acabou ali. Acho que perdi uma ótima oportunidade de ficar calado.

 Pois é, naquele tempo as moças usavam anágua ou combinação. Para não ficar transparente, para não aparecer nem a marca da calcinha nem o sutiã.  E aquilo era sexy, acreditem. 

 Naquela época ninguém falava em TPM. Nós, rapazes, nem sabíamos o que era isso. Às vezes a gente falava que as moças “tinham regras” ou “estavam de regra”. E se elas se mostravam um pouco mais irritadas, a gente dizia que elas “estavam naqueles dias”. Mas, só comentávamos isso entre nós. Nunca com elas, claro. Comentar isso com elas era assassinato certo e na hora.

 Bom também eram aquelas festinhas de aniversário na casa da Zulmira e da Zulma do Odílio, ou da Letícia e da Regina do Dr. Juca. Quando a gente era convidado, a gente chegava todo prosa, como se fôssemos os donos do pedaço. Mas,  quando a gente não era convidado – o que era mais comum – a gente ficava do lado de fora, muitas vezes fumando e olhando para as moças que entravam ou saindo da casa, na esperança de recebermos um aceno para entrar – um aceno que nunca vinha.

 Também tinha as horas dançantes do domingo à tardinha  no Clube Bom Despacho, mas só podíamos dançar se estivéssemos de paletó e gravata. E não podíamos dançar de rosto colado porque a “fiscal” – a Roxa, do Jacinto Lopes -  tocava a campainha na hora. Pior era quando a gente criava coragem de convidar uma moça pra dançar e ela se recusava, dizendo que estava cansada ou já estava indo embora – quando, na verdade, ela estava era esperando que um outro rapaz mais bonitinho a convidasse. Nessas horas, eu não sabia onde enfiar a cara. Certa vez, um amigo meu, o Miro, bem mais experiente que eu (era uns dois anos mais velhos) me disse: “-Mozart, você não pode ir direto chamar uma moça pra dançar, não! Senão você quebra a cara. Você tem de esperar ela olhar pra você umas duas ou três vezes para então se aproximar!” Eu até concordei com ele, mas o diabo é que só as mais feiosinhas é que me olhavam duas ou três vezes. A Zulmira, a Joana Helena, a Antônia, a Elisa – aquelas minhas paixões platônicas – nem tomavam conhecimento de minha existência. E quando a moça aceitava dançar com você e só dançava uma música e pedia licença? Via-se que ela só aceitara o convite por educação. A gente tentava puxar assunto, enquanto dançava, mas ela só respondia em monossílabos, querendo demonstrar que não estava afim. Acabava a primeira música ela agradecia e pedia licença e ia se sentar. Aí era eu que ficava na maior “sem gracesa”. Mas, também quem mandou eu não ser bonito, como eram o Bete, o Derly, o Márcio Mesquita – uns rapazes que eu achava que não tinham nada na cabeça. Mas quem disse que uma moça de 16-17 anos está à procura de um rapaz da idade dela e que tenha algo na cabeça? 

 Eu me lembro quando surgiu o Modess. Foi uma revolução na higiene feminina, substituindo aquelas toalhinhas que nossas mães usavam e que eram constrangedoramente ridículas. Lembro-me de uma vez que fui com a Neusa, minha irmã, na farmácia para comprar um”melhoral” e modess para ela. E nenhum de nós dois teve coragem de pedir o modess porque havia pessoas por perto. Até que me aproximei de um dos balconistas e discretamente e baixinho pedi um pacote e ele gritou: “-Oh, Afonso, traga um pacote de modess para o Mozart aqui, ó!” Havia umas três moças clientes da loja que a tudo ouviram e riram. Adivinhem onde botei minha cara!

 Naquela época as moças costumavam casar virgem. E para pegar na mão dela era um parto. Ela sempre dizia: “-Para com isso! Tem gente olhando. Lá fora eu deixo você pegar.” E, no caminho pra casa dela, a gente queria forçar um beijo e era aquela peleja. Se a gente contasse para um amigo que tinha dado um beijo na Jane ou na Lurdinha, ou na Marisa, a fama delas corria longe. Soltas mesmo eram as moças da capital. Pelo menos, era assim que a gente imaginava. Me lembro quando fui com um colega ao Rio de Janeiro pela primeira vez. Eu tinha acabado de fazer 18. Na minha imaginação, as moças de lá eram todas mais soltas, ‘liberadas, andavam de maiô pra todo lado e davam bola para o primeiro que aparecesse. Não foi assim comigo. Voltei frustrado.

 Ah, em Bom Despacho acontecia ás vezes de um rapaz engravidar uma moça de família e aquilo era um escândalo. Tinha de casar. Se não casasse, o pai da moça acertaria as contas na hora. Com o rapaz ou com os pais dele. Mas, a maioria dos rapazes naquela época, além de muito jovens, não tinha emprego nem renda nenhuma. Casar como? O jeito era fugir – o que era muito comum naquela época. Havia até um ditado que dizia que a população de Bom Despacho era equilibrada e não crescia “porque, toda vez que nascia uma criança, fogia um rapaz!” 

 Ah, mas era muito boa aquela época. Uma época em que as moças costumavam passar o cabelo a ferro quente para ficar liso. E praticavam o bambolê para afinar a cintura. Elas usavam o perfume Fleur de Rocaille e nós, homens, usávamos o Lancaster – que era o perfume usado pelos artistas dos filmes americanos. Eu só não gostava daquele cheiro forte de laquê no cabelo das moças – o que nos impedia de dançar de rosto colado. Cheguei até a pensar que algumas passavam bastante laquê justamente para afugentar os mais afoitos. Não duvido nada.

 Mas, tudo era muito bom no tempo das anáguas.
 Chantecler.

MEU AMIGO TAQUINHO

Meus caros, raros e fieis leitores,

 Volto hoje às minhas crônicas sobre algumas pessoas notáveis de nossa cidade, de ontem e de hoje. É apenas uma forma de homenagear quem eu julgo que, de uma forma ou de outra, contribuiu ou contribui para um Bom Despacho melhor.

 Hoje, vou falar do senhor Antônio Eustáquio de Araújo – um cara que, dito assim, quase ninguém conhece. Mas, se eu disser que vou falar do Taquinho da Adibom, aí a coisa muda de figura. A gente é muito, mas muito amigo mesmo. Por isso, tudo o que eu disser aqui a respeito dele, deve ser dado o devido desconto pelo viés da amizade que nos une. 

 Conheci o Taquinho numa tarde de setembro de 2002, na prefeitura. Eu, recém-vindo de Brasília, era o Chefe de Gabinete do prefeito Geraldo Simão e ele apareceu por lá pra tratar de um loteamento com o prefeito. Quem nos apresentou, na minha sala, foi o então Vereador Gomes – que tinha um bar na Praça da Matriz, ali perto da Casa Paroquial, lembram? Enquanto aguardávamos pelo Geraldo Simão, ficamos ali conversando numa boa. O Gomes disse ao Taquinho que eu era morador do Edifício Assunção e que costumava jogar uma sinuquinha com o Noé no seu bar quase toda noite. O Taquinho, então, se gabou de que era o melhor jogador de sinuca e me desafiava para jogar lá naquela noite. Chegamos pontualmente no horário combinado: 19 horas. Começamos a tomar uma cervejinha e a jogar sinuca (era uma daquelas sinucas pequenas de bar). Para dar um pouco mais de graça, cada partida valia 5 reais. Não, ele não jogava tão bem como dissera à tarde (campeão de BD, essa é boa!), mas jogava melhor que eu – o suficiente para me ganhar de 22 a 5. Ao final, paguei-lhe o devido mas ele, generosamente, pagou a bebida. Ficou praticamente elas por elas. Mas, começou a nascer ali uma amizade sólida, baseada na admiração mútua, na sinceridade e na franqueza descontraída. Tudo isso apesar da diferença de idade. Acho que sou uns dez anos mais velho do ele, mas como ele parou de contar a idade aos 59 anos, acho que essa diferença hoje é um pouco maior. Uns 20 anos.

 E faz 20 anos que somos amigos. Ao longo desse período, fui conhecendo quem é o Taquinho. Mais que um simples empresário, ele é um empreendedor excepcional e um comerciante nato. Muitos já me disseram que ele é muito “esperto” pra fazer negócios. Falam isso como se fosse um defeito, um cara que passa a perna nos outros e que se aproveita da situação periclitante de alguém para levar vantagem. Não vejo assim. Ele é, sim, um grande comerciante, mas não no sentido de que se aproveita dos outros, mas, sim, no sentido de que vislumbra com muita antecedência oportunidades de bons negócios. E se sua intuição empreendedora lhe diz que o negócio tal pode ser uma boa, ele não titubeia: arrisca e investe. Já levou uns tombos, é verdade – mas isso, pra ele, faz parte da vida e dos negócios. 

 A rigor, quem conhece “teoria da negociação”, diria que ele é um péssimo negociador. Um bom negociador seria, em tese, aquele que lhe oferece 50 mil pelo seu carro usado, enquanto você quer 70 mil e vocês vão conversando até chegar em 60 mil. Com ele, não é assim. Se ele lhe oferece 50 mil por seu carro, este já é o preço final que ele pagará. Da mesma forma, se ele lhe disser que vende o carro dele por 60 mil, este é seu preço final e ele não reduzirá nenhum centavo. É pegar ou largar. Contraria toda a teoria da negociação. Mas, é assim que ele é. E tem dado certo. A grande vantagem dele é que ele cumpre todos os acordos, ainda que eventualmente lhe dê prejuízo. Cumpre tudo o que contratar. Não falha nunca. Nunca deu os canos em ninguém. Não que eu saiba.

 Poderia ficar falando aqui de suas proezas empresariais. Mas seria chover no molhado. Vou só relembrar umas poucas. Embora formado em Direito, optou por mexer no ramo imobiliário. Em 1989, criou sua primeira empresa, a ADIBOM – Administradora de Imóveis Bom Despacho. Com a Adibom, ele se tornou pioneiro dos loteamentos e chacareamentos de Bom Despacho. Construiu edifícios e casas, criou bairros importantes na cidade. Dos edifícios que construiu, o de mais destaque, sem dúvida, é o Monalisa, ali ao lado do Banco do Brasil, uma portentosa edificação com duas torres, ambas de mais de 20 andares. O Edifício Monalisa é o seu cartão de visita. 

 E os bairros “nobres” criados por ele? O primeiro foi o Bairro Babilônia, lançado em 1999, com uma estratégia inovadora: o financiamento dos lotes em até 120 meses, possibilitando inúmeras pessoas de menores condições financeiras a ter seu próprio lote. O destaque do Bairro Babilônia é a Praça Senhora do Sol, com a réplica do Cristo Redentor. Após o Babilônia, vieram os bairros Santo Antônio (ao lado do Babilônia), o Santo Agostinho, Gameleira, Jardins, Liberdade, Belvedere e as chácaras Laranjeiras, Cristais e Prata.

 Mas, não vou ficar aqui listando as obras e realizações da Adibom – que são inúmeras. Prefiro falar do homem Taquinho. Como já disse, convivemos há 20 anos. Nesse tempo, pude observar quão bom, atencioso e carinhoso pai ele é. O Diego, o Vinícius e a Tamara que o digam. Também é amigo dos amigos. Solidário a toda hora. Nunca o vi negar algo a alguém que precisasse e o procurasse. Simples no vestir, informal no proceder. Quantas e quantas vezes o vi chateado com isso ou aquilo, mas nunca o vi perder a calma. Sempre irônico e gozador. Educado, nunca o vi ofender ou menosprezar alguém, rico ou pobre. Um líder nato que se impõe por sua competência natural. 

 Eu tinha uma chácara colada na dele, ali perto do SESC. Todas as tardes, a gente costumava largar tudo o que estávamos fazendo (eu largava menos pois já era aposentado) e íamos pra chácara dele jogar sinuca e baralho. Cada partida valendo 5 reais, claro. Invariavelmente, ele me ganhava na sinuca e eu descontava na “caixeta”. É que, além de eu jogar baralho melhor do que ele, eu ainda roubava dele quando da distribuição das cartas. E ele nunca percebeu. Eu tinha de fazer isso senão ele me levaria à falência na sinuca. 

 E foi mais ali, naquelas duas ou três horas que passávamos juntos quase que diariamente, jogando e conversando,  é que se fortaleceu a nossa amizade e a minha grande admiração por ele. Meu sonho é vê-lo um dia prefeito de nossa cidade. Vai ser um grande prefeito, não tenho dúvidas. Talvez o melhor de todos. 

 Ao meu amigo Taquinho, da forma mais desinteressada possível, presto esta homenagem. No fundo, eu só queria, mesmo, que a gente de Bom Despacho o conhecesse melhor.

 Chantecler.


Um comentário:

  1. Meu Deus... Obrigada pelo primeiro presente do nosso dia!!! Adorei cada frase e fui conversando com vc a cada palavra. Gostaria de dar pitaco, com concordando e agradecendo a cada palavra, mas ao afinal teria escrito um outro texto. Portanto fica aqui o meu simples obrigada por todo o texto e em especial ao nosso dia.

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